

Laís de Lucca
Nicolas Diot lembra bem de quando o amor começou a caber em uma tela. Ainda era novidade deslizar o dedo e ver o acaso se transformar em escolha. O analista de dados, de 32 anos, reflete sobre o início do Tinder, que chegou no Brasil em 2013, se aperfeiçoou no ano seguinte, e em 2015, já estava dando frutos. “Ainda era o começo, sabe? Eu tinha vários matches e várias conversas boas, porque as pessoas ainda viam aquilo como novidade.” O aplicativo, para ele, funcionou como um portal: “Todas essas pessoas que eu conheci pelo Tinder eu não conheceria de outra forma. Foi uma maneira de me abrir a experiências que o destino comum não me levaria.”
Hoje, no entanto, o deslize parece mais pesado. “O algoritmo foi mudando e, hoje em dia, tudo você tem que pagar, e as pessoas estão mais fechadas. Muita gente traumatizada com relacionamentos passados, com medo de se entregar. Então, vira uma bola de neve”, comenta Nicolas. O gesto, que antes parecia mágica, virou esforço.
O último relacionamento de Nicolas também teve início nos aplicativos, e terminou recentemente, ainda este ano. Do encontro, nasceu um filho — um desfecho que ele encara com serenidade. “Às vezes essas histórias terminam com esse final”, diz. A história dele resume bem o que muitos vivem: entre deslizes, algoritmos e afetos, as formas de se conectar atualmente são feitas de tentativas, de encontros breves e de conexões que, mesmo quando acabam, deixam marcas reais.
Amar nunca foi simples, mas, na era digital, o amor também depende de wi-fi e da vontade do algoritmo. A cena é comum: alguém pega o celular no meio do intervalo do trabalho, abre o aplicativo de namoro e começa a deslizar. Em segundos, conhece dezenas de pessoas, troca algumas mensagens e, quase sempre, encerra a conversa sem sequer se lembrar do nome do outro. O gesto virou hábito. O flerte, rotina. O amor, uma experiência mediada por telas.
Nos últimos anos, os aplicativos de relacionamento deixaram de ser curiosidade para se tornarem parte do cotidiano de milhões de brasileiros. Segundo o Pew Research Center, quase metade dos adultos estadunidenses já usou algum app para conhecer pessoas; entre os jovens de 18 a 29 anos, o índice chega a 53%. No Brasil, uma pesquisa, de 2023, da empresa de inteligência de mercado Savanta, citada pelo G1, revela um aumento no número de usuários que desinstalam os apps por “cansaço emocional”.
Entre matches e desencontros, surge uma pergunta que atravessa a geração hiperconectada: será que o amor sobrevive ao ritmo das notificações?