

Durante dez dias, o celular de Tomás não parava.
As mensagens vinham sempre parecidas. Um “oi” direto no WhatsApp. Às vezes tímido, às vezes mais direto: “Você me passou seu número no Tinder.” Todos os números tinham o mesmo DDD: 65, de Cuiabá, Mato Grosso. Eram homens. Jovens. Todos procurando por alguém chamado Ariel.
Tomás mora em São Paulo. Nunca foi Ariel.
No começo, achou que era engano. Depois, começou a desconfiar de algo mais organizado. Um perfil no Tinder, chamado “Ariel”, distribuía o telefone dele para desconhecidos. A dinâmica era simples: a conta pedia para continuar a conversa “no Zap” e repassava o número real de Tomás.
Durante cerca de dez dias, dois ou três homens por dia entravam em contato. Alguns percebiam o erro e sumiam. Outros insistiam.

Tomás responde tentando entender o que está acontecendo. Pergunta sobre o perfil e pede provas.

A resposta traz um detalhe importante.

Não usaram o rosto dele. Usaram o telefone.
Não era golpe financeiro. Não era tentativa de romance. Era exposição.
Ou, nas palavras dele, “uma piada engraçadíssima, superlegal”. O sarcasmo não disfarça o incômodo.
Tomás suspeita de quem possa ter feito isso. Fala em provocações antigas nas redes sociais, comentários maldosos, implicâncias recorrentes. Prefere não afirmar nada publicamente, mas algo ficou claro: alguém havia criado um perfil usando seu número sem consentimento. Sem querer e sem sequer saber, Tomás havia se tornado parte de uma prática conhecida como catfishing.