Fundo — Amor Vira Roteiro (mobile)

Os membros da Geração Z, nascidos entre 1997 e 2012, cresceram consumindo narrativas que transformavam o amor em espetáculo: declarações públicas, química instantânea e finais recompensadores. A repetição desses modelos consolidou um imaginário afetivo no qual intensidade e perfeição passaram a parecer pré-requisitos do romance. Quando confrontam essas expectativas na vida adulta, muitos se deparam com frustração, já que relações humanas não seguem roteiros estruturados nem garantem clímax emocional.

Entretanto, os impactos não se limitam a frustrações. Na última década, o cinema romântico passou por um processo significativo de ampliação de representatividade, com casais que começaram a romper o padrão tradicional, como o modelo heterossexual, branco, magro e alheio a conflitos sociais ou emocionais complexos. Esse movimento permitiu que jovens historicamente sub-representados encontrassem, pela primeira vez, referências afetivas nas telas. Nesse contexto, a identificação não apenas amplia o repertório narrativo, mas também legitima diferentes formas de amar e existir.

Para Matheus Marangoni, mestre em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM, “as narrativas românticas ajudam a moldar expectativas porque oferecem roteiros culturais, ou seja, códigos de ‘como amar’, que muitas pessoas utilizam na construção da própria identidade”. O professor, responsável na ESPM pela disciplina Fandom: Cultura e Consumo dos Fãs, destaca que “no universo do fandom, esses roteiros ganham ainda mais força, pois se transformam em capital cultural de fã”. Segundo Marangoni, conhecer cenas, falas e situações “vira uma linguagem compartilhada, que ajuda a reconhecer sinais, nomear emoções e até estabelecer padrões do que é romântico, saudável ou ideal”.

Com o objetivo de explorar essa dualidade, foi elaborada uma linha do tempo que reúne marcos da cultura pop, incluindo filmes, séries, músicas e outras narrativas midiáticas, a fim de evidenciar como essas representações contribuíram para moldar percepções contemporâneas sobre o romance.

A onda de remakes live-action de contos de fadas tradicionais da Disney marcou o início de um movimento de resgate das narrativas românticas clássicas. Filmes já conhecidos do público, como Cinderela, em que uma criada vai ao baile e o príncipe se apaixona por ela, e A Bela e a Fera, em que uma jovem, muito à frente de seu tempo, parte para resgatar o pai e acaba se apaixonando pela Fera ao enxergar sua verdadeira essência, reforçam ideais de amor verdadeiro e duradouro. No entanto, na tentativa de dialogar com um público mais jovem, algumas mudanças foram feitas para modernizar essas histórias, o que nem sempre foi bem recebido, evidenciando a dualidade entre tradição e modernidade.

Em La La Land, uma atriz aspirante, Mia, e um pianista, Sebastian, se conhecem e se apaixonam. O filme é um musical e narra como são as possíveis carreiras em Hollywood. No entanto, o sentimento não é suficiente para sustentar o relacionamento. Os dois decidem se separar para alcançar seus sonhos profissionais, mostrando que, nesse caso, o amor deixa de ocupar a posição de prioridade máxima.

Me chame pelo seu nome foi um marco para a representatividade queer. O filme é sobre Elio, de 17 anos, que se apaixona por Oliver, de 24, enquanto eles passam o verão na Itália em 1983. Apesar das críticas recebidas pelos espectadores sobre a escolha dos atores, Armie Hammer e Timothée Chalamet, que são heterossexuais e interpretam uma relação homoafetiva. O filme contribuiu para ampliar a diversidade de experiências amorosas retratadas no cinema, trazendo uma narrativa LGBTQIA+ para o centro do debate cultural.

Com a ascensão do streaming, filmes baseados em livros ganharam ainda mais espaço, como A barraca do beijo e Para todos os garotos que já amei, ambos adaptações da Netflix. A barraca do beijo conta a história de Elle, que acaba beijando seu crush e irmão de seu melhor amigo, Noah. Já Para todos os garotos que já amei acompanha Lara Jean após sua irmã enviar cartas que ela havia escrito para todos os garotos por quem já se apaixonou, desencadeando uma série de acontecimentos, incluindo um namoro de mentirinha com Peter Kavinsky, o garoto mais popular da escola.

Nesse contexto, as tropes (termo em inglês usado para se referir a clichês narrativos, especialmente românticos) ganharam força e passaram a estruturar expectativas sobre relacionamentos, levando muitos jovens a estabelecer conexões entre suas próprias experiências e as narrativas ficcionais.

O lançamento de After trouxe para o público jovem a representação de um relacionamento marcado por ciúmes, insegurança, conflitos e instabilidade emocional. Baseado em uma fanfic inspirada em Harry Styles, o filme acompanha o relacionamento conturbado entre Tessa e Hardin durante a vida universitária. Em diversos momentos, as atitudes dos personagens principais são romantizadas, o que pode gerar confusão entre paixão intensa e comportamentos tóxicos. Dessa forma, o filme evidencia como nem sempre é fácil identificar quando uma relação ultrapassa os limites do que é saudável.

A série Pessoas normais, adaptada do livro de Sally Rooney, surge em um momento de isolamento social, durante a pandemia da Covid-19, para mostrar que nem tudo é ideal em um relacionamento. A narrativa acompanha Marianne e Connell desde o final do ensino médio até a vida universitária, enquanto navegam por suas diferenças e dificuldades. A história não foge de conflitos reais, como a falta de comunicação, inseguranças e constantes idas e vindas. Ao longo da trama, os personagens percebem que a conexão emocional precisa ser valorizada, mas também entendem que intensidade e instabilidade podem caminhar juntas.

Baseada em livros e ambientada na era regencial em Londres, a série Bridgerton apresenta paixões arrebatadoras ao mesmo tempo em que constrói intensas tensões entre os personagens. O casal central da primeira temporada é formado por Daphne Bridgerton e Simon Basset, um duque que, assim como ela, inicialmente não está necessariamente em busca de um relacionamento. A narrativa se desenvolve a partir desse jogo de aparências e sentimentos. Em um período pós-pandemia, essa certa desconexão com a realidade reforça como o romance pode funcionar como forma de escapismo, oferecendo ao público uma experiência emocional distante das incertezas do cotidiano.

Com o lançamento do álbum Midnights, da cantora norte-americana Taylor Swift, tornou-se ainda mais evidente a ligação entre vida amorosa e exposição pública. Com faixas como Sweet Nothing, Karma e Mastermind, a artista retrata a importância de criar uma bolha segura para os relacionamentos. As músicas foram analisadas faixa por faixa pelos fãs, que buscavam identificar a quem cada letra se referia e quais experiências pessoais teriam inspirado as composições. Ao longo da carreira, a cantora construiu um storytelling baseado em seus relacionamentos, fazendo com que sua vida afetiva se tornasse parte central de sua imagem pública.

Mesmo sendo um gênero com diversos títulos ao longo dos anos, a comédia romântica passou por um período de menor presença nos cinemas. No entanto, com o lançamento de Todos menos você, esse cenário começou a mudar. Estrelado por Sydney Sweeney e Glen Powell, que interpretam Beatrice e Ben, respectivamente, o filme acompanha os personagens que, após um desencontro, precisam fingir estar em um relacionamento. A produção resgata a leveza característica das comédias românticas do início dos anos 2000, reacendendo o interesse do público pelo gênero.

O BookTok é a comunidade do TikTok dedicada a falar sobre livros. Nesse espaço, criadores de conteúdo, leitores e editoras compartilham recomendações e impulsionam obras, especialmente do gênero romance, um dos mais populares da plataforma. Ali, é possível encontrar indicações de leitura, criar clubes do livro, descobrir novos autores e acompanhar discussões sobre obras que viralizam na rede. Muitos leitores retomaram o hábito da leitura por causa desses títulos, mas o gênero também é questionado por criar expectativas irreais sobre relacionamentos e, para alguns críticos, por “empobrecer” a qualidade literária disponível no mercado.

Programas como Brincando com Fogo, De Férias com o Ex e Casamento às Cegas mesclam entretenimento e relacionamentos, transformando a vida amorosa em espetáculo. Cada um deles explora dinâmicas diferentes: em Brincando com Fogo, participantes que costumam priorizar relações superficiais precisam evitar o contato físico para construir conexões emocionais; em De Férias com o Ex, jovens são enviados para uma ilha enquanto antigos relacionamentos reaparecem; já em Casamento às Cegas, um experimento social busca responder se o amor realmente pode surgir sem a influência da aparência.

Mais do que apenas consumir o conteúdo, o público se envolve com os casais, analisa comportamentos, escolhe lados e torce para que, ao final, as relações deem certo. Após as filmagens, alguns participantes permanecem juntos, enquanto outros seguem caminhos diferentes. Ainda assim, o que parece mais relevante é a experiência vivida durante o programa.

Ao longo do tempo, as produções da grande mídia passaram a retratar uma maior diversidade de formas de amar, incluindo experiências que antes ficavam à margem das narrativas dominantes. Nesse contexto, como destaca o professor Matheus Marangoni, quando fãs discutem romances, também acabam produzindo normas. “Por exemplo, o que conta como química, consentimento, cuidado, toxicidade e reparação. E isso influencia como relações reais são avaliadas e narradas”, diz.

Assim, a cultura pop não apenas acompanha as transformações das relações afetivas, mas também participa ativamente da construção de seus significados. Ao oferecer modelos, códigos e expectativas, essas narrativas influenciam a forma como o amor é vivido, interpretado e, muitas vezes, idealizado na contemporaneidade.

* A linha do tempo foi elaborada em colaboração com o professor da ESPM Matheus Marangoni, graduado em Publicidade, mestre em Comunicação e Consumo e professor da disciplina Fandom: Cultura e Consumo dos Fãs, na ESPM.