Fundo — Intimidade por Assinatura (mobile)

Diante da tela do celular, rolando perfis de cosplay, prática em que fãs se fantasiam e interpretam personagens da cultura pop, Anny Leal parou por alguns segundos em uma imagem que não esperava encontrar. Uma personagem estava ali, reconhecível no figurino e na pose, mas reinterpretada de outra forma: mais exposta, mais sensual, pensada para ser desejada. “Quando eu bati o olho, a feminista em mim estranhou”, lembra. “Eu pensava: por que eu faria uma versão sensual de uma personagem bem construída, inteligente?”

Naquele momento, a ideia parecia contraditória. Transformar personagens admiradas, fortes e complexas em objetos de desejo parecia reduzir algo que, para ela, sempre foi mais do que aparência.

Mas a repetição mudou o olhar e, com o tempo, aquele tipo de conteúdo deixou de causar estranhamento imediato. Entre um scroll e outro, a estética foi se tornando familiar. E, junto com ela, surgiu a curiosidade.

“Foi um processo gradual. Chegou um momento em que aquilo não parecia mais absurdo, e eu quis experimentar também.”

Intimidade por Assinatura
Anny Leal caracterizada com peruca loira, camisa branca, gravata vermelha e segurando uma espátula. Reprodução: Instagram de Anny Leal (@annyleall_)

A experiência começou de forma íntima. Durante a pandemia, sozinha em casa, Anny passou a fotografar o próprio corpo, testando ângulos, luz, enquadramento. Não havia ainda uma audiência definida, só um exercício de olhar para si mesma. Hoje, diante da câmera, ela veste personagens da cultura pop e constrói cenas que misturam performance, erotismo e narrativa.

“Eu gosto de criar histórias. Pegar personagens que eu amo e colocar eles em uma narrativa mais íntima.”

O que começa como interpretação, no entanto, rapidamente se transforma em produto. As imagens e vídeos são publicados em plataformas pagas, onde assinantes acompanham não apenas o resultado final, mas todo o universo que ela constrói. Ali, desejo, fantasia e mercado se encontram.

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Anny Leal deitada em uma cama, usando lingerie, em ambiente com iluminação vermelha e azul. Reprodução: Instagram de Anny Leal (@annyleall_)

A experiência de Anny não é isolada. Ela se insere em uma transformação mais ampla na forma como o erotismo circula na internet. Nos últimos anos, plataformas de conteúdo adulto passaram a estruturar um mercado global baseado não apenas na venda de imagens, mas na monetização da fantasia, da atenção e da sensação de proximidade entre criadores e público.

Em 2024, a plataforma OnlyFans movimentou mais de US$ 7,2 bilhões em pagamentos a criadores, com cerca de 377,5 milhões de usuários e 4,6 milhões de perfis ativos, segundo dados divulgados em matéria do UOL, em agosto do ano passado.

O crescimento das plataformas de conteúdo adulto pago tem redesenhado as fronteiras entre fantasia, economia e intimidade na vida contemporânea. Nos últimos anos, sites de assinatura e venda direta de conteúdo passaram a estruturar um mercado global baseado na monetização da atenção, do desejo e da proximidade simbólica entre criadores e consumidores.

Anny decidiu criar um perfil na plataforma Hotvips, plataforma brasileira ligada ao grupo Sexy Hot. “Eu senti segurança por ser uma plataforma nacional, com suporte e comunidade. Isso foi importante para eu começar”, afirma.

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Anny Leal usando fantasia de coelha, com orelhas, gravata borboleta e meia-calça, sentada sobre um sofá. Reprodução: Instagram de Anny Leal (@annyleall_)

Se a pornografia tradicional se organizava majoritariamente em torno de grandes estúdios e distribuição gratuita financiada por publicidade, as plataformas atuais permitem que indivíduos monetizem diretamente o próprio conteúdo e construam audiências fiéis por meio de assinaturas, mensagens e venda de material exclusivo.

Para o pesquisador Luiz Mazer, na dissertação de mestrado “Economias da intimidade nas plataformas digitais”, defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), esse modelo está ligado ao surgimento de uma nova lógica de mercado baseada na circulação de afetos. Segundo o autor, nesses ambientes “não se comercializa apenas o conteúdo sexual em si, mas também a sensação de proximidade, reconhecimento e identificação entre criadores e público”. Essa dinâmica aproxima o conteúdo adulto de outras áreas da chamada economia da atenção, em que seguidores buscam identificação com quem produziu o material.